Em maio de 2026, a ABVP recebeu um convite do Ministério do Turismo e Artesanato da Argélia através da Embaixada da Argélia em Portugal para participar num programa de familiarização (*eductour*) destinado a jornalistas, operadores de turismo e criadores de conteúdo de todo o mundo. A Argélia está a apostar fortemente no turismo como uma forma de diversificar a sua economia, promovendo o país como um destino de excelência para o turismo cultural, histórico, natural e de aventura.
Entre 13 e 19 de maio, participei nesta viagem como representante da associação, integrando um grupo internacional com mais de 50 participantes provenientes de mais de 30 países. Ao longo de sete dias, percorremos várias regiões da Argélia, numa experiência que combinou descoberta cultural, contacto com diferentes perspetivas e troca de experiências entre viajantes e profissionais do setor. Toda a logística de transportes e acompanhamento foi assegurada pela ONAT Algeria, enquanto a HTT prestou apoio ao nível do alojamento e das refeições.
O convite chegou no âmbito do SITEV 2026, Salão Internacional de Turismo e Viagens da Argélia, na sua 25ª edição, realizado em Argel no espaço SAFEX. O SITEV é a maior feira de turismo do país e um dos maiores do continente africano, reunindo expositores de dezenas de países e servindo como montra da oferta turística argelina para o mercado internacional.
O contexto: a Argélia quer estar no mapa do turismo
A decisão de incluir bloggers e criadores de conteúdo portugueses neste programa não foi casual. A Argélia está numa fase de abertura clara ao turismo, e isso é possível verificar na simplificação do processo de vistos para cidadãos europeus, no investimento na infra-estrutura turística e na vontade de estar presente nos radares de novos mercados. Portugal, com a sua proximidade cultural com o Mediterrâneo, alguma história comum e a sua posição como mercado emissor em crescimento, é um alvo estratégico nessa equação.
Visitar o SITEV no âmbito deste programa foi útil para perceber a dimensão do que está a ser construído, não apenas em termos de infraestrutura, mas de narrativa. A Argélia quer ser contada. E está a convidar quem conta histórias para o ajudar a fazê-lo. Um dos momentos cruciais desta visita foi a possibilidade de falar com a Ministra do Turismo e do Artesanato da Argélia, Houria Meddahi, e saber em primeira mão quais são as principais apostas deste sector para o futuro.
Entre as principais prioridades estão a valorização do património histórico, o desenvolvimento do turismo no Sahara, a modernização das infraestruturas turísticas e o reforço da promoção internacional do destino. O país pretende também atrair investimento para o setor, acelerar a digitalização da oferta turística e apoiar iniciativas que contribuam para um turismo mais sustentável. Com estas medidas, a Argélia procura aumentar o número de visitantes internacionais e posicionar-se como um dos principais destinos turísticos do continente africano sem foco em massificação.
O programa: sete dias, cinco destinos
O eductour foi desenhado para mostrar a diversidade do país num itinerário que cobriu a costa norte:
Argel
A capital abre o roteiro com uma densidade que surpreende quem chega sem grandes expectativas. A Casbah, Património Mundial UNESCO, é um labirinto de ruelas onde a vida quotidiana acontece à porta de cada casa, sem a turistificação que transformou outras medinas do Mediterrâneo como cenário. No topo da colina, a Basílica de Nossa Senhora de África domina a baía e no altar, contém uma inscrição singular que pede à Virgem que reze “por nós e pelos muçulmanos”, tornando-se um poderoso símbolo de diálogo entre religiões, um resumo involuntário de uma cidade que sempre coexistiu. O Bastião 23, o Memorial dos Mártires e, acima de tudo, a Grande Mesquita Djamaa el-Djazaïr, a terceira maior do mundo, inaugurada em 2019, com um minarete de 265 metros, completam uma cidade que está claramente a afirmar-se no presente sem abandonar o passado.
Tipaza
O roteiro fecha na costa oeste de Argel, onde as ruínas romanas de Tipazaestão em frente ao mar. O anfiteatro, as vilas, os templos, tudo com o Mediterrâneo como pano de fundo permanente. O Mausoléu Real da Mauritânia, um monumento funerário circular do século I a.C., provavelmente o túmulo de Cleópatra Selene II, filha de Marco António e Cleópatra, fechou o nosso roteiro cultural.
Tlemcen
A uma hora e meia de Oran, Tlemcen foi entre os séculos XII e XV uma das grandes capitais culturais do Islão ocidental, e guarda esse passado de forma intacta e quase desconhecida. O dia começou na natureza, nas Cascatas de El Ourit e as Grutas de Beni Add. A Grande Mesquita, fundada em 1082, o Túmulo de Sidi Boumedienne e as ruínas de Mansourah que guardam um minarete do século XIV, são mais do que razões para uma visita a esta cidade.. O Palácio Mechouar e o miradouro do Plateau Lella Setti foram também pontos de paragem. A chegada a Tlemcen ficou marcada por uma receção oficial do presidente da cidade, que nos conduziu numa viagem pela história de uma das mais fascinantes cidades da Argélia.
Oran
Oran tem uma energia mediterrânea que é imediatamente reconhecível. O Museu Nacional Zabana foi uma das nossas paragens, o Forte de Santa Cruz oferece uma belíssima vista da cidade e do mar, e a única praça de touros de África construída pelos espanhóis no século XIX, foi um dos sítios mais inesperados do roteiro. Passámos também pela costa até Les Andalouses que mostra praias que, na Europa, seriam um destino de verão completamente lotado.
Annaba
Annaba é a cidade menos esperada e uma das mais marcantes. As ruínas de Hipona (Hippo Regius), a duzentos metros do Mediterrâneo, com o fórum romano, as termas e os mosaicos ainda presentes, são o sítio onde Aurélio Agostinho foi bispo durante 35 anos e onde escreveu A Cidade de Deus e As Confissões, dois textos que moldaram o pensamento europeu durante milénios. A Basílica de Santo Agostinho, no alto da colina com vista para o mar, marca o sítio com uma presença que se vê de grande parte da cidade.
O que fica
A Argélia é o maior país de África e o décimo maior do mundo. Tem ruínas romanas, arquitectura islâmica medieval, herança otomana, art déco, natureza selvagem e um litoral mediterrâneo de 1.200 quilómetros. Tem uma história que atravessa fenícios, romanos, berberes, árabes, otomanos e franceses, e que ainda hoje se lê nas pedras de cada cidade que percorremos.
O que não tem, ainda, é o lugar que merece no imaginário turístico europeu. Mas isso está a mudar, de forma deliberada, com consciência clara de onde está e de onde quer chegar. Para quem cria conteúdo de viagem em português, isso representa uma janela que não vai ficar aberta para sempre: a possibilidade de chegar a um destino extraordinário antes de ele estar formatado, antes de a experiência ter sido demasiado polida.
Esta semana mostrou-me que a Argélia não precisa de ser descoberta, precisa de ser contada. E essa, no fundo, é exactamente a nossa função.
Para mais informações sobre a Embaixada da Argélia em Portugal, segue esta instituição no X.



